A ansiedade e o medo andam de mãos dadas. Antigamente não sabia qual era a origem da minha ansiedade, mas agora, em pequenas coisas, começo a perceber as raízes do problema. Se falava mais rápido, era para me despachar e não estar a incomodar. Mas quem disse que estava a incomodar?! A minha cabeça.
Depois vieram as crises de ansiedade intensas desde que tive um tumor borderline, e percebi que o meu maior medo era morrer. No início não podia ouvir falar de cancro, pois muitos da minha família do lado paterno — inclusivé o meu pai — tinham falecido com a doença.
Depois do falecimento do meu pai, do tumor e de duas operações, veio a sobrecarga emocional. Fui-me abaixo com muito medo de morrer e com constantes crises de ansiedade. Uma simples dor no corpo deixou de ser uma coisa natural e passou a ser um abismo onde podia cair.
Quatro anos depois, ainda travo uma pequena luta com a ansiedade.
Mas hoje já sei que a ansiedade não nasceu do nada. Ela tem história. Tem raízes. Tem memórias que não são só minhas.
A nível psicológico, percebo que o meu corpo aprendeu a viver em alerta. Quando alguém cresce a observar doença, perda ou imprevisibilidade, o sistema nervoso aprende a antecipar o pior para tentar proteger.
A ansiedade, por mais desconfortável que seja, é uma tentativa de sobrevivência. É o corpo a dizer: “Eu lembro-me do que aconteceu. Eu não quero que aconteça outra vez. Eu não quero morrer.”
Só que o corpo não distingue passado de presente. E então reage como se o perigo ainda estivesse aqui.
A nível sistémico, compreendi que parte deste medo não começou em mim.
O medo da morte, o medo da doença, o medo de não ter tempo suficiente… tudo isso já existia antes de eu nascer.
Carrego no corpo ecos da história da minha ancestralidade, das perdas que eles viveram e nunca puderam processar e fazer luto.
Quando o meu pai morreu, fiquei sem chão. Não só pela dor da perda, mas porque, de uma forma inconsciente, herdei o lugar de quem tenta vigiar a vida, como se pudesse impedir que a morte voltasse a levar alguém ou até a mim mesma.
É como se o meu sistema dissesse:
“Se estiveres sempre alerta, talvez nada de mau te aconteça.”
Mas viver assim cansa. Parte-me. Desregula-me.
A nível emocional, a ansiedade tornou-se uma espécie de guardiã.
Ela aparece sempre que o corpo dá um sinal, sempre que algo me lembra que sou humana e vulnerável.
E, ao mesmo tempo, ela revela a parte de mim que ainda está a aprender a confiar na vida depois de tantas perdas.
Hoje percebo que a cura não é apagar o medo, mas acolhê-lo.
É olhar para a ansiedade como uma criança assustada que viu demasiado cedo aquilo que não devia ver.
E dizer-lhe:
“Eu estou aqui agora. Eu cresci. Eu posso cuidar de ti.”
Percebo também que parte do meu medo não é meu — pertence à minha linhagem.
E quando reconheço isso, algo em mim ganha um pouco mais de confiança.
Deixo de lutar contra o que sinto e começo a dar lugar ao que precisa ser visto.
E então, o que muda?
Muda que já não estou perdida dentro da ansiedade.
Muda que já não acredito que cada dor é um aviso de morte.
Muda que já não fujo de mim.
Ainda há dias difíceis, sim.
Mas agora sei que cada crise é um pedido de atenção, não uma sentença de morte.
Sei que o meu corpo está a reaprender a sentir-se seguro.
E sei que, pouco a pouco, estou a devolver ao meu sistema aquilo que não é meu carregar.
A ansiedade ainda caminha comigo, mas já não me arrasta.
Hoje, caminho eu e ela vem ao meu lado, mais pequena e mais compreendida.
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