Cura Criança Interior II
Há um instante, quase sempre silencioso, em que tu deixas de conseguir sustentar o mundo.
Não é drama, não é falha, não é desistência.
É simplesmente o momento em que o corpo diz basta.
E então sentas-te.
O coração apertam.
As lágrimas desabam.
A respiração fica curta, como se o ar tivesse medo de entrar.
Mas é precisamente aí, nesse lugar onde o cansaço se torna verdade, que algo desperta.
Dentro de ti, a criança dourada levanta-se.
Não corre, não grita, não exige.
Ela apenas se ergue, inteira, como quem sabe que chegou a hora de ser vista.
Ela toca-te por dentro com uma delicadeza antiga.
Uma delicadeza que reconheces sem saber explicar.
É quase um sussurro, quase um calor, quase um gesto que não se vê mas que se sente.
Ela levanta os braços como quem diz:
“Eu lembro-te....Eu lembro-te do que eras antes de te cansares de ser forte.”
E tu, mesmo sentada, triste e sem cor, sentes esse toque.
Um toque que não julga.
Um toque que não pede explicações.
Um toque que só quer que pares de fugir de ti.
Por cima de tudo isso, há uma trama que se chama vida e que ainda não terminou.
Linhas que se cruzam como caminhos que tentaste seguir.
Pontos que se repetem como padrões que tentaste quebrar.
Flores que ainda não abriram porque tu ainda não abriste espaço para elas.
Mas a criança dourada sabe esperar.
Ela sabe que o teu corpo precisa de tempo.
Ela sabe que o teu coração precisa de descanso.
Ela sabe que a tua alma precisa de ser tocada com cuidado.
E é por isso que ela não te puxa.
Ela chama-te com suavidade, com verdade.
Com aquela luz que nunca se apagou, mesmo quando tu apagaste tudo o resto.
A tua criança interior não quer que voltes ao passado.
Ela quer que voltes a ti.
Ao que é vivo.
Ao que é teu.
Ao que ainda pode florescer.
E talvez seja isso que esta pintura te mostra:
que mesmo quando o adulto se desfaz, a criança permanece inteira.
Que mesmo quando o mundo pesa, há uma luz dentro de ti que não se deixa apagar.
Que mesmo quando tudo parece interrompido, há flores no caminho.
A cura não é um salto.
É um toque.
Um ponto.
Um fio.
Um gesto pequeno que se repete até o coração confiar de novo.
E a criança dourada — essa que te habita — está ali, de braços erguidos, a lembrar-te:
“Eu sou a parte de ti que nunca deixou de acreditar que ainda podes florescer.”
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