A verdade é simples e dura:
um caminho a dois não se faz com a força de um só.
Quando apenas um dos barcos rema, o outro torna-se peso. Não por maldade, mas por incapacidade. E é aqui que nasce a dor: no esforço solitário de tentar sustentar o que só poderia existir se fosse feito a dois.
Deixar ir não é desistir, não é desistir do outro. Deixar ir é apenas um acto de autocuidado. É saber reconhecer que não fomos feitos para viver em constante tensão.
E reconhecer que o amor não se sustenta na tensão, mas no encontro.
É perceber que o amor não se prova pelo quanto aguentas, mas pelo quanto te permites respirar.
É perceber que, quando o outro não rema, o nosso barco começa a afundar.
Soltar é um acto de coragem.
É abrir as mãos feridas e permitir que a água leve o que já não te pertence.
É confiar que, ao libertar o que não quer ficar, criamos espaço para o que realmente sabe permanecer.
Quando soltas, algo dentro de ti reorganiza-se.
O corpo descontrai.
O coração volta a ouvir-se.
A tua energia deixa de ser drenada e começas a regressar ao teu centro.
Porque quando deixamos ir, algo em nós volta a respirar.
Voltamos a sentir o peso do nosso próprio corpo, o ritmo do nosso próprio remo, a direção da nossa própria maré.
Soltar não é perder — é recuperar-te.
É permitir que a vida te mostre novos caminhos, novas marés, novas formas de relação onde o movimento é mútuo e a direção é partilhada.
E então, finalmente, percebemos:
não é o outro barco que nos salva — é a nossa capacidade de navegar de volta a nós mesmas.
Soltar é um gesto de amor por ti.
E é nesse gesto que tudo começa.
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