Cura da Criança Interior
Há uma criança dentro de nós que não vive no tempo.
Ela não conhece calendários, nem entende a lógica do “já passou”.
Para ela, tudo o que foi sentido… ainda existe.
Essa criança guarda as emoções que não soubemos nomear.
Guarda os medos que engolimos para sermos fortes.
Guarda a alegria que foi interrompida,
e também o amor que ficou por receber.
Nesta pintura, ela está deitada.
E isso é importante.
Porque deitar é um gesto de rendição.
É parar de resistir.
É permitir que o corpo diga aquilo que a mente tentou esconder durante anos.
A criança interior não se deita apenas para descansar.
Ela deita-se quando já não quer lutar.
Quando já não quer provar nada.
Quando finalmente se permite existir sem ter de merecer espaço.
Ao seu lado, os lírios Indian Chief florescem como uma presença terapêutica.
São como a natureza a sussurrar:
“Tu podes florescer, mesmo depois do que viveste.”
Estes lírios não são suaves por acaso.
A sua cor é intensa, quase ardente, como se carregassem uma verdade antiga:
a delicadeza não é fragilidade…
é coragem em forma de sensibilidade.
A criança está ali, próxima das flores,
porque a cura acontece assim:
não através do esquecimento,
mas através da proximidade com aquilo que nos devolve vida.
Talvez esta imagem seja o retrato de um reencontro.
Não com a infância idealizada,
mas com a infância real.
Aquela que aprendeu cedo demais a calar.
Aquela que se adaptou para sobreviver.
Aquela que criou máscaras para ser aceite.
E agora, nesta quietude, algo muda.
Porque quando olhamos para a nossa criança interior com ternura,
o corpo começa a abrandar.
A respiração torna-se mais profunda.
O coração, que esteve anos em alerta, aprende lentamente a confiar.
Cuidar da criança interior não é voltar atrás.
É finalmente dar-lhe o que lhe faltou:
acolhimento, proteção, validação.
É dizer-lhe:
“Eu vejo-te.”
“Eu acredito em ti.”
“Eu não te vou abandonar outra vez.”
E talvez seja isso que esta pintura nos lembra:
a verdadeira cura não é sermos pessoas diferentes…
é sermos capazes de amar as partes de nós que foram esquecidas.
Porque quando a criança interior descansa,
a alma começa a respirar.
E quando a alma respira,
a vida volta a florescer.
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