É também a história antiga — a nossa e a que veio antes de nós.
Porque, do ponto de vista sistémico, o medo de amar e o medo de perder não nascem no vazio.
São ecos. São memórias emocionais que o corpo guarda, mesmo quando a mente já não se lembra.
Às vezes, não é apenas o que vivemos que nos coloca em alerta.
É o que vimos as mulheres da nossa família viver.
É o que aprendemos sobre amor, abandono, ausência, silêncio e perda.
É o que o nosso sistema interno registou como “perigo” para nos manter vivas.
E assim, sem percebermos, repetimos padrões que não escolhemos.
Reagimos antes de sentir.
Defendemo-nos antes de confiar.
Fechamo-nos antes de sermos realmente vistas.
Mas há algo profundamente espiritual neste processo:
o corpo nunca está contra nós.
Ele protege-nos como pode, com as ferramentas que tem.
O medo é uma tentativa de cuidado, mas apenas não é a mais sábia
O caminho terapêutico começa quando conseguimos olhar para esse medo com curiosidade, não com culpa.
Quando deixamos de perguntar: o que está errado comigo? e começamos a perguntar:
O que é que em mim ainda precisa de ser visto, acolhido, curado?
É aqui que a ponte começa a ser reconstruída. Não no outro, mas em nós.
Quando reconhecemos que o medo não é o inimigo, mas sim uma parte nossa que precisa de segurança, de presença, algo muda.
O coração abre um milímetro e a alma respira.
E, pouco a pouco, deixamos de viver entre o medo de amar e a dor de perder.
Passamos a viver entre o coragem de sentir e a liberdade de escolher.
Porque o amor verdadeiro, o que cura, o que expande, o que sustenta, não nasce da ausência de medo. Nasce sim da capacidade de o atravessar.
Do ponto de vista sistémico, o amor nunca é apenas entre duas pessoas.
É entre dois sistemas.
Duas linhagens. Duas memórias emocionais que se encontram, se tocam e, às vezes, chocam.
Muitas mulheres carregam no corpo memórias de abandono, de relações inseguras, de amores que não ficaram.
Carregam também o que viram as suas mães viver, o que as avós suportaram, o que as bisavós calaram.
E sem perceber, repetem padrões que não escolheram.
O medo, então, não é fraqueza...É herança.
Mas há algo profundamente espiritual neste reconhecimento:
quando olhamos para o medo com consciência, ele transforma-se.
Quando deixamos de o combater e começamos a escutá-lo, ele revela a sua origem.
E quando a origem é vista, algo dentro de nós começa a libertar-se.
É aqui que o amor deixa de ser ameaça e volta a ser um caminho.
É aqui que deixamos de viver entre extremos — medo de amar, dor de perder —
e começamos a viver num lugar mais inteiro: o lugar onde o amor é escolha e não sobrevivência.
Porque o amor verdadeiro não exige que deixemos de ter medo.
Exige apenas que não deixemos o medo decidir por nós.
E isso é uma escolha...
Exercício Sistémico — Linhagem Feminina
Senta-te confortavelmente. Fecha os olhos.
Coloca as mãos no coração ou onde sentires que a tua energia feminina vive hoje.
Respira fundo três vezes.
Com cada expiração, imagina que o corpo abre espaço para algo novo.
Imagina-te de pé, num caminho longo.
Atrás de ti, em linha, estão as mulheres da tua linhagem:
a tua mãe, avó, bisavó, e todas as que vieram antes.
Não precisas de ver rostos.
Basta sentir presenças.
Algumas podem estar cansadas.
Outras podem estar com o coração partido.
Outras podem estar fortes, mas endurecidas.
Todas carregam histórias.
Diz em voz baixa ou apenas dentro de ti:
Eu vejo-vos. Eu reconheço o que viveram.
Eu honro o caminho que abriram para que eu pudesse estar aqui.
Sente o impacto destas palavras no corpo.
Se vier alguma emoção, deixa vir, acolhe-a e respeita-a.
Agora imagina que estás a segurar um peso...o peso do medo, da perda, da hipervigilância, da desconfiança, da solidão emocional.
Esse peso não começou em ti.
Apenas chegou até ti.
Com suavidade, envia tudo isso para trás das costas e devolve esse peso à tua linhagem, dizendo:
Queridas, isto não é meu. Eu devolvo-vos com amor o que vos pertence. E fico apenas com o que é meu e me serve.”
Não estás a rejeitar apenas a respeitar.
Devolves por respeito.
Agora imagina que, ao devolver o peso, as mulheres atrás de ti começam a endireitar-se. Algumas sorriem. Outras choram. Outras respiram de alívio.
E uma energia nova começa a vir na tua direção: a força, a intuição, a coragem, a criatividade, a sabedoria do feminino.
Coloca as mãos no coração e diz:
Eu recebo a força da minha linhagem feminina. Eu permito-me viver o amor de uma forma nova.
Sente essa energia entrar no corpo como se fosse uma luz.
Agradece às mulheres que vieram antes de ti.
Agradece ao teu corpo por ter sustentadi o que não era dele.
Agradece ao teu coração por continuar disponível para amar.
Respira fundo. Abre os olhos.
# Rute Ferreira - Alma Criativa 🦉
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