Ser mulher
Ser mulher, nos dias que correm, devia ser mais fácil.
Devia, mas nem sempre é assim.
Há mulheres que parecem viver uma vida leve, alinhada, fluida.
E há outras que carregam batalhas silenciosas em todas as áreas da vida: no corpo, no trabalho, nas relações, na família, na saúde emocional.
E o mais duro é que nem sempre aquilo que vivemos é uma escolha.
Há situações que simplesmente acontecem, que nos atravessam, que nos empurram para lugares onde nunca pedimos para estar.
No chamado “mundo da espiritualidade”, repete‑se muitas vezes que tudo é uma escolha.
Mas eu não acredito nisso de forma absoluta.
Porque essa ideia, quando mal usada, transforma‑se numa arma apontada ao peito das mulheres:
de repente, tudo parece culpa nossa.
Se não conseguimos mudar uma situação, dizem que é porque não fizemos pensamento positivo suficiente, não vibrámos alto, não nos comportámos da forma “certa”, não sentimos a emoção “correta”.
Como se a vida fosse uma equação simples.
Como se a dor fosse sempre opcional.
Como se a responsabilidade de tudo o que acontece estivesse sempre do nosso lado.
A espiritualidade deveria ser um caminho de crescimento, clareza e apoio.
E sim, há práticas que ajudam, que elevam, que curam.
Mas há outras que apenas nos afundam mais, que nos fazem sentir pequenas, erradas, insuficientes.
Se já estás mal, ouvir que “atraíste isto” ou que “não estás a fazer bem” só te faz piorar.
No fim, quem constrói o mundo da espiritualidade são pessoas, com as suas vivências, feridas, crenças e limitações.
E por isso vais ouvir opiniões completamente diferentes sobre o mesmo assunto.
E se tu não sentes ou não vês o mesmo, fazem-te acreditar que o problema és tu.
Mas não és.
A verdade é simples:
cada realidade é diferente.
Cada caminho é único.
Cada mulher carrega histórias, oportunidades, encontros e desafios que não se repetem em mais ninguém.
Há coisas que são escolha tua, claro.
Mas há outras que definitivamente não são.
E o modo como alguém te trata nunca será responsabilidade tua.
O que é teu, e só teu, é o que fazes depois disso.
Ser mulher é navegar tudo isto:
a força e a vulnerabilidade,
a culpa que não é nossa,
as expectativas que não pedimos,
e a coragem de continuar a existir com dignidade, mesmo quando o mundo insiste em complicar o que deveria ser simples.
# Ruteferreiraart - Alma Criativa
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