Desde sempre senti um fascínio profundo pelo tarot. Não faço leituras profissionais, mas sempre me encantou a linguagem simbólica das cartas e a forma como cada arcano parece guardar um pedaço da alma humana.
Durante muitos anos, procurei no tarot aquilo que a maioria procura: respostas sobre o futuro, sinais externos, previsões, certezas. A famosa “futurologia”. Mas, com o tempo, algo começou a soar-me errado. Percebi que muitas leituras eram filtradas pelas crenças pessoais dos tarólogos, pelos seus medos, pelas suas histórias e modos de viver.
E, sem me dar conta, deixei que essas visões fossem projetadas sobre a minha vida.
Eram interpretações generalistas, que nunca se cumpriam e que me deixavam mais confusa do que esclarecida.
Depois de várias desilusões, algo mudou dentro de mim.
O tarot deixou de ser uma janela para fora e tornou-se um espelho para dentro.
Comecei a perceber que as cartas não estavam ali para me dizer o que ia acontecer, mas sim para revelar o que estava a acontecer dentro de mim.
Passei a olhar para cada arcano como um convite:
o que em mim precisa de luz?
o que precisa de arranjo?
o que pede paciência, entrega, coragem?
O tarot transformou-se numa ferramenta de autoconhecimento, não de previsão.
Num mapa interno.
Num diálogo com o inconsciente.
Hoje, quando tiro uma carta, já não pergunto “o que vai acontecer?”.
Pergunto sim: O que esta energia desperta em mim?
O que preciso de ver que ainda não vi?
Que parte de mim está a pedir atenção?
E é aí que o tarot se torna medicina.
Não porque prevê o futuro, mas porque traz luz ao momento presente.
Porque mostra o que está vivo, o que está ferido, o que está a nascer.
O tarot não me diz quem vou ser.
Mostra-me quem estou a tornar-me e isso, para mim, é infinitamente mais valioso.
Nesta pintura, no meu caderno terapêutico, exploro o lado mais livre e colorido da carta "o louco".
A carta "O Louco" é uma das mais profundas e paradoxais do tarot e uma das que mais fala ao meu caminho, porque toca diretamente na tensão entre liberdade e controlo, entre o salto de fé e o medo do desconhecido. "O Louco" abre mão de controlar a própria vida. Ele move-se. Ele ouve o vento. Ele segue o impulso da alma.
Há momentos na vida em que tentamos segurar tudo com as mãos... planos, pessoas, resultados, timings e certezas.
Fazemos listas, estratégias, previsões.
Tentamos antecipar cada curva, cada sombra, cada possibilidade de falhar.
E, sem perceber, ficamos presos ao que queríamos evitar: o medo.
É aqui que o Louco entra como um espelho luminoso.
O Louco lembra-te que o controlo é uma ilusão confortável, mas nada mais é do que uma ilusão.
A vida não se dobra ao nosso planeamento; ela dança com o que somos por dentro.
Quando tentas controlar tudo, a tua energia fica rígida, tensa, pesada.
O Louco traz o contrário:
leveza, respiração, movimento, confiança.
Ele diz-te: “Solta um pouco. A vida não te quer perfeita, ela quer-te viva.”
Controlar tudo é uma forma de tentar evitar a dor, mas também evita o milagre.
O Louco convida-te a dar um passo sem garantias, não porque és irresponsável, mas porque estás alinhada com o que é verdadeiro em ti.
Ele ensina que...quando soltas o controlo, o caminho abre.
Quando confias, a vida responde.
Quando dás o salto, o chão aparece e mesmo que seja só uma experiência.
O Louco não te pede para abandonares a estrutura, pede-te apenas que não te percas.
Pede-te para deixares espaço para o inesperado, para o mágico, para o que não se controla, mas que às vezes transforma.
O Louco aparece quando a tua alma já decidiu algo…e a tua mente ainda está a tentar apanhar o atraso.
Ele surge quando já não és a pessoa que foste, ainda não és a pessoa que vais ser e estás naquele espaço entre mundos onde tudo parece instável.
O Louco diz-te que estás num limiar.
Um ponto zero.
Um renascimento.
Há uma parte tua que quer soltar, mudar, arriscar, respirar diferente.
E outra parte que tenta controlar, prever, garantir que nada corre mal.
Mas o Louco diz-me: Confia no impulso que te chama. Solta o controlo que te prende. Dá o salto mesmo com medo. Escolhe a leveza em vez da rigidez.
A energia do Louco mostra que a tua alma está a empurrar-te para um salto que não é externo, mas sim interno.
O salto não é “mudar de vida”. É mudar a forma como te moves dentro da tua vida.
Não é um salto para fora.
É um salto para dentro.
Para dentro da tua coragem.
Para dentro da tua criatividade.
Para dentro da tua verdade.
Para dentro da tua liberdade.
# Rute Ferreira - Alma Criativa 🦉
Sem comentários:
Enviar um comentário