quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um grito preso na garganta








Há anos que trago um grito preso na garganta, mas que não consigo soltar. A força desse grito nasce no fundo do estômago, atravessa o peito, passa pelo coração e sobe até à garganta, onde permanece aprisionado, sem conseguir encontrar uma saída.
É um grito feito de palavras que nunca disse, de lágrimas que nunca chorei, de sonhos que ficaram pelo caminho e de emoções que aprendi a esconder. Um grito que pede espaço para existir, mas que, por medo, por insegurança ou simplesmente por hábito, continua calado.
Penso várias vezes em dar um grito, mas acabo por não o fazer. Como justificar perante os outros esse grito, vou fazer barulho e incomodar... então, acabo sempre por manter esse grito aprisionado.
Com o passar do tempo, esse grito transformou-se num vazio. Um vazio silencioso que habita o coração e a alma. Um espaço onde antes existia esperança, entusiasmo e vontade de abraçar a vida. Um vazio que não dói de forma intensa, mas é constante. É uma ausência difícil de explicar para quem nunca a sentiu.
Por vezes, penso que esse vazio não nasceu daquilo que perdi, mas daquilo que nunca me permiti viver plenamente. Das verdades que calei, dos limites que não impus, dos desejos que deixei para depois e da pessoa que fui deixando para trás enquanto tentava corresponder às expectativas dos outros.
Mas talvez o grito ainda esteja ali por uma razão. Talvez não queira apenas sair; talvez queira ser ouvido. Talvez o vazio não seja um fim, mas um convite. Um convite para olhar para dentro, para resgatar partes de mim esquecidas pelo tempo e para voltar a ocupar, pouco a pouco, os espaços que ficaram abandonados dentro da minha própria alma.
E quem sabe, um dia, esse grito deixe de ser dor e se transforme em voz. A minha voz. Livre, autêntica e finalmente capaz de encontrar o seu lugar no mundo.

"Há gritos que não se ouvem, mas, vivem dentro de nós, à espera de se transformarem em voz."

# Rute Ferreira - Alma Criativa 🦉 

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