sexta-feira, 29 de maio de 2026

A mulher dentro do relacionamento amoroso

Hoje venho aqui falar de algo tão comum a muitas de nós. Já se passou comigo, acredito que já se tenha passado contigo e que se venha a passar com futuras gerações femininas. Porque quer se queira quer não, somos moldadas pela ancestralidade feminina e quem vier depois será um pouco moldada pelas gerações seguintes. 
E podemos dizer que este "comportamento" é comum a vários estratos sociais, profissionais e etários. Porque a mulher pensa com o coração e nem sempre são correspondidas como merecem. 

A mulher actual entra num relacionamento com o coração desperto e a consciência acesa, mas os resultados finais são muito semelhantes aos que as suas avós ou mães tiveram. 
Ela já não ama completamente às cegas — ama com presença, mas nunca se pode esquecer que o "amor cega" e muitas vezes continuam a confundir aquilo que o companheiro é, com aquilo que elas dejerariam que ele fosse. 

A mulher, traz consigo a sua história, o seu corpo que sente, a sua intuição que a avisa, a força que a sustenta, e o seu desejo de construir algo que seja casa e não labirinto. Dentro da relação, ela é feita de entrega e lucidez ao mesmo tempo.
Cuida, observa, tenta, conversa, ajusta.
Ela dá o melhor que tem, mas também vigia o que recebe.
Percebe quando há reciprocidade e quando há ausência.

Percebe quando está a ser vista e quando está apenas a ser trespassada pelo olhar. 
E mesmo assim, insiste um pouco, porque a mulher tenta de tudo antes de desistir.
Ela tenta gerir as emoções como quem segura água nas mãos: com delicadeza, mas sabendo que não pode agarrar o que não quer ficar. Mas luta até ao fim e dá tudo, podendo também sair com a sua energia drenada. 
E quando sente que a relação já não a encontra, começa a recolher-se por dentro, devagar, quase sem ninguém notar. O coração fecha para o outro, deixa de sentir e passa só a observar. 

No final de um relacionamento, a mulher vive as suas emoções num turbilhão silencioso. E nem sempre um relacionamento chega ao fim com a partida do outro. Fazer o "luto" de uma pessoa "presente" é muito mais difícil do que fazer por uma pessoa que saía da nossa vida. 
Não é só tristeza que se sente...é a quebra de um futuro imaginado.
É o corpo a desaprender rotinas.
É a alma a tentar entender onde se perdeu.
Primeiro vem o choque.
Depois vem a dor.
E logo a seguir, a pergunta:
O que é que isto diz sobre mim?
Porque me aconteceu isto?
Onde falhei?

Ela sente tudo:
a saudade, a raiva, a culpa, o alívio, a confusão.
Mas, ao contrário de antigamente, ela já não se abandona para sobreviver à perda. Embora seja bastante tentador entrar nesse abandono, que foi anteriormente apreendido. 

Ela observa-se.
Ela respira.
Ela chora quando precisa, faz silêncio quando é preciso e aprende a ficar sozinha, mesmo quando isso dói, mesmo quando o outro está lá, mas de uma forma invisível.
Podem demorar dias, meses ou anos, lentamente, algo começa a mudar. 
A mulher começa a recuperar o eixo.
A perceber que o fim não é fracasso, é fronteira, começa a perceber o seu valor e que no fim de contas quem perdeu foi o outro. 
Que o amor que deu não foi desperdiçado, foi um caminho que tinha que ser percorrido.
Que o que doeu não a diminuiu, mas transformou-a.E quando finalmente volta a olhar para si com amor, percebe:
não perdi um amor, recuperei-me a mim mesma.

Rute Ferreira - Alma Criativa 🦉 




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