Mas neste caso quero falar daqueles que nos são mais chegados, aqueles com quem partilhamos sangue, história, memórias e feridas. Daqueles por quem estamos intimamente e fortemente ligados a nível emocional.
Numa família Somos todos diferentes, carregamos personalidades que julgamos ser únicas, mas há sempre algo em nós que nos une ao outro: padrões antigos, expectativas silenciosas, papéis que cada um desempenha sem perceber. Criamos dinâmicas, manipulações subtis e jogos de poder que muitas vezes nem reconhecemos como tal.
Tu contas algo sobre ti, sobre o que te aconteceu no dia, e vem o outro e diz algo que tu não gostas ou não estás preparada para ouvir. Respondes. O outro, como não gostou do que disseste, amua, fecha-se, fica triste. E de todas as vezes que algo mais forte acontece contigo, as reações são sempre as mesmas: tu falas, vem um opina, tu respondes, o outro fica triste. Sempre que uma ação e uma reação se repetem, criam-se dinâmicas. E tornam-se num círculo vicioso.
Até que um dia tu percebes o que está a acontecer. Percebes que, no final, a reação a essas dinâmicas acaba por te deixar mal. Tu ficas mal porque o outro fica triste, e automaticamente sentes que tens de resolver, de compensar, de acalmar. Mas tu não tens que resolver. Porque quando falaste da primeira vez, só estavas à espera de um apoio emocional daqueles que te rodeiam e não estavas à espera de opiniões, julgamentos ou correções.
E é aqui que a consciência começa: perceber que o que tu procuras é acolhimento, enquanto o outro responde com interpretação. Tu procuras presença, o outro oferece opinião. Tu procuras colo, o outro oferece análise. E quando isto acontece repetidamente, instala-se uma dança emocional onde tu ficas sempre no papel de quem tem de gerir o impacto das tuas próprias emoções e das emoções do outro.Mas a verdade é simples e dura: não és responsável pela forma como o outro lida com aquilo que sentes.
Não és responsável pela tristeza que o outro cria a partir das tuas palavras.
Não és responsável por equilibrar a casa inteira sempre que expressas algo teu.
O que tu podes e deves fazer é reconhecer o padrão, nomeá-lo dentro de ti, e começar a colocar limites suaves mas firmes. Porque a tua verdade merece espaço. E o teu sentir merece ser ouvido sem ser corrigido.
As dinâmicas familiares não nascem do nada. São construídas ao longo de anos, às vezes de gerações.
E quase sempre envolvem quatro elementos fundamentais:
Papéis invisíveis — o cuidador, o mediador, o rebelde, o silencioso, o que resolve tudo, o que carrega tudo.
Padrões repetitivos — as mesmas conversas, os mesmos conflitos, as mesmas reações que parecem automáticas.
Lealdades emocionais — aquilo que fazemos “para não magoar”, “para não criar problemas”, “para manter a paz”.
Narrativas herdadas — “não faças ondas”, “não digas isso”, “não se fala de sentimentos”.
O ponto de viragem:
A aproximação verdadeira às dinâmicas familiares acontece quando tu reconheces que não és responsável pelas emoções que o outro cria a partir das tuas palavras. Não tens de resolver o que não provocaste. Não tens de carregar o peso emocional da casa inteira. A tua expressão não é um ataque.
O teu sentir não é um problema a ser corrigido.
Dentro da família, raramente reagimos ao presente, mas sim reagimos ao passado.
Àquilo que aprendemos a ser para sobreviver emocionalmente. Quando falas e o outro responde com crítica, opinião ou tristeza, não é apenas sobre o que disseste. É sobre o papel que cada um aprendeu a desempenhar. É sobre a dança emocional que se repete há anos.
O que nasce quando ganhas consciência:
- Surge a clareza de que o outro reage a partir das suas próprias feridas, não das tuas palavras.
- Surge a possibilidade de quebrar o ciclo e criar uma nova forma de relação.
Limites emocionais: o ponto onde a tua verdade encontra o teu cuidado por ti
- Colocar limites emocionais não é afastar ninguém.
É aproximar-te de ti.
Limites emocionais são:
- Dizer o que sentes sem te responsabilizares pela reação do outro.
- Pedir apoio emocional em vez de opiniões.
- Não resolver o que não é teu.
- Não carregar a tristeza que o outro cria a partir das tuas palavras.
- Não te punir por expressar a tua verdade.
Limites não são muros...São portas.
Portas que tu decides quando abrir e quando fechar.
Quando colocas limites, algo muda:
- O padrão deixa de te controlar.
- A dinâmica deixa de te fazer mal.
A consciência é o primeiro passo. O limite é o segundo. A liberdade emocional é o terceiro.
E tudo começa quando tu decides observar, nomear e escolher fazer diferente.
Mas atenção que nós também somos capazes de causar mal estar no outro e também uma vez por entre outra representar o papel que o outro representa para nós e vice versa.
Por isso, ter noção das dinâmicas familiares é tão importante....
# Rute Ferreira - Alma Criativa 🦉
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